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Um leitor na Assembleia Legislativa

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Subsecretário Crispim e João na Aleac

Sempre com um sorriso no rosto e muitas histórias para contar, João Batista da Silva, de 62 anos, é uma figura conhecida na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac). Todos os dias, ele vai até lá para ler os exemplares de ao menos quatro jornais que circulam no estado. O seu João, como é conhecido, contou que as ruas do Centro da capital acreana, Rio Branco, se tornaram seu “lar” há mais de 20 anos.

“Aprendi a ler ainda pequeno, no tempo que se chamava ginásio. Gosto de ler jornal todo dia, porque preciso ficar informado sobre política, tanto do Brasil como aqui do Acre. Também gosto das páginas policiais. Inclusive, queria falar para o povo acordar, porque o Brasil está quebrado por conta desses políticos”, explica o morador.

Mesmo sem lembrar exatamente a data em que sua vida mudou e ele passou a viver na rua, Silva relatou que morava sozinho em uma casa no bairro Calafate e precisou fazer uma cirurgia. Após ficar dias internado, ele retornou para casa e o local havia sido invadido. Com medo, ele diz que resolveu não brigar pelo direito e procurou abrigo nas calçadas e bancos da capital.

O andarilho conta que carrega tudo que tem dentro de um saco e isso para ele é suficiente. “Minha mala é um saco e o cadeado é um nó. Ando com uns panos que me cubro, um travesseiro, capa de frio e roupas que eu ganho das pessoas. Só que à noite, os outros moradores de rua me pedem dizendo que estão com frio e eu dou para eles”, afirma.

Meio confuso, ele contou que já trabalhou em alguns lugares e teve uma vida boa, mas logo depois, muda de assunto. Sobre o sonho de ter uma casa para morar, Silva disse que nunca desistiu. “Tenho vontade de ter um lugar para viver, mas isso naturalmente chega. Porém, não tenho mais ansiedade com relação a isso como eu tinha antes quando era mais novo”, esclarece.

A vida nas ruas
Silva fala como é o dia a dia nas ruas e disse que gosta de dormir e acordar bem cedo. Depois que acorda, procura um lugar para poder tomar banho e vai em busca do café da manhã, que é doado pelo dono de um lanche que fica no Terminal Urbano da capital. Em seguida, vai para a Aleac, onde conversa com várias pessoas, lê os jornais e ainda faz um lanche.

“Gosto de dormir em ambiente climatizado, então durmo nessas UPAS [Unidade de Pronto Atendimento de Saúde], mas às vezes vou deitar no cemitério ou nos bancos do Pronto Socorro. Depois que leio os jornais que eles me dão na Aleac, ainda consigo vender para os meninos que lavam carros e tiro um dinheiro. Quando vai ficando de tarde, já procuro um lugar para passar a noite. Essa é minha rotina”, conta.

Ele, que dorme em cima de papelões ou jornais, disse que além das condições precárias que vive, precisa enfrentar a violência. Silva afirmou que por várias vezes já foi assaltado e agredido por outros moradores de rua. “No Natal do ano passado me levaram tudo que eu tinha, fiquei só com a roupa do corpo”, relembra. A solidariedade de algumas pessoas é o que mantém o morador de rua. Segundo ele, tem gente que chegar a dar uma quantia fixa por mês. “Vivo de doações. Consegui um controle e uma administração, que faz com que nunca falte dinheiro no meu bolso. Às vezes, tem cédulas que ficam meses no meu bolso guardado sem eu gastar”, diz orgulhoso.

Ajudar outras pessoas
Mesmo vivendo nas ruas, sem família e sem emprego, Silva disse que faz questão de ajudar as pessoas que precisam. Segundo ele, muitos necessitam apenas de um sorriso e uma palavra de carinho e conforto. Religioso, o morador de rua contou que todos os dias em suas orações questiona Deus sobre as mazelas e injustiças do mundo e depois agradece por sua vida. “Não se doa só roupa, dinheiro ou comida. Eu entro nessas UPAS, quando consigo, vou até os leitos e desejo melhora para as pessoas, pego na mão, procuro um copo d’água, um lençol para cobrir, abro uma porta. Se eu não fizer isso, não quero viver”, enfatiza.

‘Como se fosse parte da equipe da Aleac’
Para o subsecretário de comunicação da Aleac, Rutembergue Crispim, Silva já é quase parte da equipe. Segundo ele, que considera o morador de rua como um amigo, mesmo com uma história marcada por sofrimento e abandono, ele encanta a todos com um coração bom e humilde.

“Seu João é um homem que tem o coração bom, apesar de todas as angústias que ele já passou na vida. É muito respeitoso, chega na Aleac, dá bom dia, pergunta pela nossa família, deseja que a gente seja feliz e sempre incentiva. Para nós, ele já é como se fosse parte da nossa equipe, porque todos os dias ele praticamente está lá e sempre fica um pouco, conversa, sorri com a gente”, conta Crispim.

O subsecretário afirmou que o morador de rua também gosta de discutir e conversar sobre política e sempre manifesta preocupação com relação às coisas que ocorrem no estado. Crispim acredita que Silva é uma vítima da sociedade. “Ele foi abandonado pela família, pelos amigos e hoje, infelizmente, mora na rua. É uma pessoa altamente de confiança, nunca vi seu João querer pegar alguma coisa que não pertencia a ele ou fazer algo errado. Ele, de certa forma, é uma inspiração para a gente ser mais gente e mais humano”, finaliza subsecretário.

Fonte: g1.globo.com