Aurora da Rua - Só mais um site Sites da ASA

Lutando pela vida

box1

Foto: Félix Zucco

Com a força que hoje distribui jabs, cruzados e ganchos, o boxeador Thaynô Ferreira, 18 anos, de Esteio, nocauteou um futuro sem perspectivas. De tão real, a história dele pode até lembrar um roteiro de cinema: na infância, viveu nas ruas de Porto Alegre ao lado da mãe, Liliane Vergara Ferreira, 42, e do irmão, Gabriel, 17.

Depois, ao lado do irmão, morou cinco anos num abrigo municipal, até encontrar no esporte a chance de vislumbrar o novo caminho.

Bicampeão gaúcho de boxe, o melhor do Estado na categoria Elite (Adulto) até 69kg, o jovem é uma revelação, segundo os treinadores. Em novembro, disputará o Brasileiro pela primeira vez. Sozinho, Thaynô usa o mesmo olhar determinado dirigido ao saco de pancadas do centro de treinamentos para lutar por um destino vitorioso.

A infância difícil
As ruas da Capital foram a casa de Thaynô até os oito anos. Sempre com a mãe e o irmão, o menino comemorava a chegada da noite para ter onde dormir.

— A mãe não tinha onde nos deixar para conseguir trabalhar. Então, dependíamos da assistência dos outros. Foi um período muito difícil, mas estávamos sempre juntos — recorda.

Entre os oito e os 12 anos, o jovem viveu com a família na Zona Norte de Porto Alegre, enquanto a mãe trabalhava como doméstica. No início da adolescência de Thaynô, os três mudaram-se para Esteio:

— Era para melhorar de vida, mas as coisas só pioraram. Passamos fome e muitas dificuldades. Brigava muito com a minha mãe e, por isso, pedi às assistentes sociais para ir morar no Abrigo Municipal de Esteio. Meu irmão foi junto.

O encontro
No abrigo municipal, Thaynô conheceu as oficinas do Programa Integrado de Inclusão Social (PIIS), oferecidas pela prefeitura de Esteio. Por gostar de MPB e de compor músicas, o jovem optou pelo curso de violão nas horas inversas à escola.

— Mas eu estava à procura de algo para extravasar a minha energia, procurava uma família. Até que, um dia, entrei no Centro de Cultura da cidade e vi o pessoal treinando boxe. Na hora, pensei: ‘também quero fazer isso’ — confessa.

O guri franzino e desengonçado de 1,85m tomou coragem para pedir ao treinador Abílio Mendes, 35 anos, uma vaga nos treinos.

— Ele não tinha físico, nem experiência, e vinha da oficina de violão. Então, tinha tudo para não ser um atleta — conta Abílio.

Em um mês de treinos, Thaynô revelou-se um lutador de futuro, e foi incluído no time dos atletas promissores que treinam no ringue do ginásio municipal.

— Foi a primeira vez que me enganei feio, bem feio — confessa, aos risos, o treinador.

O pai emprestado
Em Abílio, o jovem viu o pai que nunca conheceu. Das mãos do treinador, recebeu a primeira atadura e o protetor bucal — incentivos que, garante, o fizeram seguir no esporte.

— Ele foi a primeira pessoa que confiou em mim e me deu algo pra que eu pudesse sonhar — reforça Thaynô.

Até fora dos ringues, Abílio se tornou um confidente das angústias do adolescente. Foi ele quem incentivou Thaynô a seguir estudando, e fez o mesmo pelo irmão do jovem, Gabriel, que passou a treinar boxe também nas horas vagas. Os dois meninos continuaram no abrigo e treinavam todas as tardes no projeto.

— Se ele não estivesse no boxe, com certeza, poderia estar na rua, no mundo das drogas, na criminalidade. No boxe, ele descobriu que o futuro poderia ser melhor. Ter a esperança de sonhar com alguma coisa bem maior na vida dele — justifica Abílio.

As vitórias no boxe
Bicampeão gaúcho na categoria Elite Adulto 69kg, Thaynô conquistou no mês passado o terceiro lugar na Copa Sul-Sudeste, em Osório, disputada com outros 90 atletas de outros Estados. A conquista o levará a disputar pela primeira vez o Campeonato Brasileiro de Boxe, peso Meio-Médio, em novembro, em Aracaju, Sergipe.

No currículo de lutas, Thaynô contabiliza 21, duas delas por nocaute, e apenas três derrotas. Mas, apesar de sonhar alto, o jovem garante que ainda é cedo para se considerar um vitorioso no esporte.

— A vida é uma escadinha. A gente tem que subir aos poucos. Se eu olhar para trás, já me considero um vencedor. Mas ainda não consigo me ver realizado. Vou me realizar quando conseguir todos os meus sonhos — afirma, decidido.

As vitórias na vida
Ao mesmo tempo em que começou a colecionar as conquistas no esporte, Thaynô viu a vida da família sofrer uma reviravolta do bem. A mãe voltou para Porto Alegre e, hoje, trabalha como doméstica e mora no emprego. Pela distância, os dois se falam mais por telefone.

— Ela já viu duas lutas minhas, mas fica muito nervosa. Melhor não ver — comenta, o jovem. Gabriel segue morando no abrigo municipal de Esteio, treina boxe com o irmão e faz curso profissionalizante no Senai da cidade.

Há dois anos, com o apoio do treinador, da administração municipal e dos colegas do esporte, Thaynô passou a morar sozinho. Ele ganhou um apartamento do Minha Casa, Minha Vida, num bairro da cidade, e começou a trabalhar como telemarketing. Há um mês, porém, perdeu o emprego ao pedir quatro dias de folga para disputar a Copa Sul-Sudeste.

— Como não consegui a liberação, pedi demissão. Estou procurando outro emprego, pois preciso pagar o apartamento e os móveis que comprei. Não quero perder a casa, e preciso manter o foco no esporte.

Fonte:http://diariogaucho.clicrbs.com.br