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Uma vivência invisibilizada

amiltonA sujeira das roupas surradas e a fisionomia castigada, de igual descrição, reproduzem, por meio de Amiltom Almeida, 56, a identidade de pelo menos duas mil pessoas que sobrevivem pelas ruas da Capital. Na Praça Luís de Albuquerque, no Porto, em frente aos bordéis, das portas de lojas até a beira do rio Cuiabá, as atividades dele e outros indigentes são evidenciadas por resquícios e odores de uma existência paralela. Uma vivência invisibilizada. Uma questão humanizada, na última semana, pela queda de temperatura.

Na trilha que leva ao rio, cobertores, garrafas de carotinho e restos de comida denunciam a ocupação do espaço. É na praça, no entanto, que a maioria das pessoas em situação de rua se aglomeram ao longo do dia, principalmente nos que registram clima gelado. Ali, na madrugada de segunda-feira (5), um idoso morreu por hipotermia.

Sem identidade e de pouca relevância social, chamou a atenção mais pela intensidade do frio do que pela própria condição. A queda atípica na região, especialmente para a época, chegou nesta ocasião aos 12,2°. “Vocês vieram por causa do véinho né? O que morreu de frio. Já vieram quatro pessoas aqui atrás dessa história” SIC, interpela um dos moradores, ao perceber que Amiltom era entrevistado. Identificando-se como Pedro, 31, aproveitou o momento para pedir ajuda e visibilidade.

Ao lado do primo, ele conta ter vindo do Maranhão para trabalhar nas obras do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), e que o emprego não deu certo. Além disso, foram roubados, perdendo documentos e dinheiro. Sem contato com a família, não têm como pedir socorro e acabaram parando na rua, fazendo “bicos” para sobreviver. “A gente foi tentar fazer outros documentos, mas fica um orgão jogando pra outro e ninguém faz nada. Ninguém quer saber disso não. Você chega em um lugar pra pedir um trabalho, uma ajuda, as pessoas te olham de cima em baixo.”

A situação na rua, para Amiltom, muda pouco com o frio, a não ser por um ou outro agasalho recebidos como doação. “Olha aqui o que eu ganhei hoje”, aponta para baixo, enquanto levanta a barra da calça e aponta para as meias e sapatos. Questionado sobre a proximidade com os colegas, especialmente nestes dias mais difíceis, afirma preferir dormir sozinho. “É só eu e Deus mesmo. E o anjo da guarda.”

Ansiosos para a chegada do jantar, servido por voluntários, surgiram outros pedintes. De maneira simpática cumprimentavam, olhavam com curiosidade e, sem cerimônia, lançavam à conversa seus relatos. Histórias que se cruzam na mendicância, que divergem, principalmente, entre revolta e conformação.

Fonte: http://www.olhardireto.com.br