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Jovens vivenciam a noite dos moradores de rua

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Há dois dias, 110 jovens estão dormindo nas calçadas de Florianópolis. Eles não são moradores de rua, nem dependentes químicos ou manifestantes. A maioria é composta por universitários ou estudantes recém-formados. São pessoas que abriram mão do conforto das suas casas para participarem de uma missão franciscana. O objetivo é sentir o mesmo que os sem-teto — inclusive o frio. Fez 6 graus na madrugada deste domingo (17), segundo a central meteorológica de Santa Catarina, a Epagri/Ciram.

Sentir o mesmo é um jeito de nivelar a caridade, mostrar que todos são iguais. A missão foi batizada de “Anawin”, palavra hebraica que significa os “pobres de Deus”, foi organizada pela fraternidade O Caminho e reúne jovens de várias cidades do sul do Brasil. “Nada nos diferencia. Não somos melhores. Se existem prediletos são os pobres”, disse a irmã Maria Dolores, organizadora da missão.

O aprendizado vem de nove séculos. Rico e vaidoso, filho de nobres italianos, Francisco de Assis esbanjava o dinheiro da família com superficialidades. Durante a guerra, adoeceu e começou ouvir vozes e acreditou ser um chamado de Deus. Então escolheu vender seus bens, abdicar da herança e se dedicar aos enfermos e miseráveis. Ele tinha 25 anos. Em 1210 fundou, ao lado de doze discípulos, a ordem franciscana. Eram homens despojados, cujas únicas posses eram uma túnica, uma corda e um par de sandálias.

Os discípulos modernos de são Francisco dormiram nas pedras do Terminal Rodoviário Rita Maria. Mas ficaram com medo de voltar. Na disputa pelo crack, a noite foi interrompida por brigas entre os moradores de rua. Um homem foi esfaqueado. Na segunda noite, desbravaram o centro da cidade em busca de papelão e dormiram no antigo terminal de ônibus. “Foi muito difícil. Passei frio e me assustei. Vi três ratos tão grandes que pareciam cães. Mas acho que o pior foi a fome”, disse Marcelo Oliveira, 21 anos.

Os franciscanos abdicam do dinheiro e dos prazeres dos bens materiais. Comem quando recebem doações ou esmolas. Os integrantes da missão fizeram a campanha do R$ 1 nos semáforos. Tudo o que conseguem é dividido com o próximo. “É a lei cristã do amor e da caridade vivida ao extremo. Vemos Cristo nas prostitutas, nos mendigos, nos presos. Dizemos que o pobre é nossa obra. E não só os pobres da matéria. Também buscamos os pobres de espírito. Aqueles que têm tudo, mas não têm nada, por que perderam o sentido da existência. Acho que esse radicalismo que atrai os jovens”, disse a irmã Dolores.

A jornalista Gabriela Ribeiro da Costa, 23 anos, concorda. A abnegação dos franciscanos fez com que ela mudasse os rumos da vida. Ela se prepara para a formação e para os quatro votos da fraternidade: pobreza, obediência, castidade e disponibilidade. Nem todos ali são como Gabriela. Alguns jovens querem viver os propósitos franciscanos sem abdicarem de suas famílias e profissões.

Fonte: http://noticias.uol.com.br